Saída da secretária de Educação é seguida por 14 pedidos de exoneração de servidores comissionados e rompimento político do partido com o governo municipal.
A exoneração de Geane Viana da Secretaria Municipal de Educação abriu uma nova frente de tensão política em Amarante do Maranhão. O que poderia ser apenas uma mudança administrativa ganhou dimensão política depois que integrantes da equipe da Educação decidiram deixar seus cargos e o partido ao qual Geane pertence anunciou oficialmente sua saída da base de apoio do prefeito Vanderly Gomes Miranda.
Segundo informações repassadas ao Blog, 14 ocupantes de cargos comissionados apresentaram pedidos de exoneração em solidariedade à ex-secretária, entre eles a então secretária-adjunta da Educação, Utineia Silva Lima. Se confirmado documentalmente, o episódio representa uma reação incomum dentro da estrutura administrativa municipal e demonstra que a exoneração ultrapassou os limites de uma simples troca de comando em uma secretaria.
A tensão teria começado durante o período eleitoral. De acordo com integrantes do grupo político de Geane, havia um entendimento estabelecido desde a primeira eleição de Vanderly: o grupo apoiaria o prefeito para o Executivo, mas manteria autonomia para escolher seus candidatos nas eleições proporcionais. Foi justamente essa autonomia que teria se transformado no principal ponto de conflito.
Geane e seu grupo mantiveram apoio a Bira do Pindaré, candidato a deputado federal, e a Cricielle Muniz, candidata a deputada estadual. O resultado eleitoral acabou ampliando a tensão. Bira não conseguiu se eleger, enquanto Cricielle obteve 85.630 votos no Maranhão, tornando-se uma das candidatas eleitas para a Assembleia Legislativa. Em Amarante, a votação de Cricielle também foi considerada significativa por seus apoiadores com 1.403 votos, e Bira 1.287.
A consequência política mais objetiva veio depois da exoneração. O partido de Geane (PT) e da vereadora Perinha (Eva Viana) anunciou oficialmente que está fora da base do Governo Municipal. Em nota, a vereadora Perinha, afirmou que respeita a decisão administrativa do prefeito, mas avaliou que a exoneração possui “natureza política” e não estaria relacionada à competência ou ao desempenho de Geane na Secretaria de Educação. Com isso, o PT declarou encerrado seu vínculo com a base política do governo de Vanderly e anunciou que passará a atuar de forma independente.
A decisão é relevante porque não se trata apenas da saída de uma secretária. Trata-se também do rompimento formal de um compromisso político que, segundo integrantes do grupo, sustentava a participação da legenda na administração municipal.
O aspecto mais incomum da crise, entretanto, está na reação dentro da própria Secretaria de Educação. Os pedidos de exoneração dos servidores comissionados – caso confirmado o número de 14 – representam uma demonstração coletiva de insatisfação que merece atenção. Não é necessário transformar esses servidores em heróis ou vilões. A questão política é outra: por que uma exoneração individual provocou uma reação coletiva dessa dimensão? Essa é uma pergunta que Vanderly terá de responder politicamente para a população.
O problema agora é maior que uma secretaria. A crise coloca Vanderly diante de uma situação delicada. Prefeitos têm prerrogativa para montar suas equipes e substituir ocupantes de cargos de confiança. Isso faz parte da administração pública. Mas toda exoneração produz consequências políticas quando envolve uma liderança com relações construídas dentro da própria estrutura de governo.
Neste caso, a saída de Geane produziu três efeitos simultâneos: abriu uma crise dentro da Educação; provocou pedidos de exoneração de integrantes da equipe; levou um partido da base a anunciar rompimento político com o governo. O resultado é que uma decisão administrativa passou a produzir consequências políticas mais amplas. A grande questão é saber se o episódio ficará restrito à Secretaria de Educação ou se representa o início de um processo maior de reorganização das forças políticas de Amarante. Vanderly ainda detém o controle institucional da Prefeitura e a prerrogativa de reorganizar sua equipe. Mas política não se resume ao controle dos cargos.
Governos também dependem de alianças, confiança e capacidade de administrar divergências. A partir de agora, o prefeito terá de lidar não apenas com a escolha de um novo secretário de Educação, mas com uma base política que já não é exatamente a mesma de antes da exoneração.
E o grupo que até então fazia parte dessa base terá de demonstrar, na prática, como pretende atuar fora do governo. A crise, portanto, não terminou com a exoneração de Geane.
Talvez tenha começado ali.